A chupeta nossa de cada dia

Sim, mentiras começam cedo em nossa história.

Já percebeu? ⠀

Quando bebês, choramos desesperados pelo conforto e a sensação de segurança que só o peito da mãe proporciona. Mas recebemos uma chupeta.

É um acordo secreto de ambas as partes: o bebê acredita na mentira pelo bem-estar que ela proporciona; a mãe se sente feliz em se livrar do fardo por alguns instantes. Foi estabelecido nosso elo com a mentira.

Entende por que é tão difícil nosso respeito e a admiração intrínsecos pela verdade?

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Certo sábio diria: "Perdoa-vos pai, eles não sabem o que dizem, não sabem o que fazem". Ele próprio ensinando na forma de mentiras e meias-verdades. Para seus seguidores não eram mentiras, eram meras "parábolas". ⠀

"fallendi cupiditas, voluntas fallendi" - diria Santo Agostino, buscando justificá-lo: ⁣"não há mentira, apesar do que se diz, sem intenção, desejo ou vontade de enganar"⠀

Parábolas, subterfúgios, meias verdades, escolha o melhor rótulo. Embora busquemos mascarar o fato, a verdade é que o homem nunca conseguiu conquistar algo pela integridade. A história da evolução social da humanidade e suas principais conquistas nada mais é do que o testemunho de uma espécie que planta, cultiva e se alimenta de mentiras como um leão devora impiedosamente uma presa inofensiva e indefesa. ⠀

Como poderia ser diferente se até mesmo no “sagrado” banhamos nossas mentiras?

Dizemos, por exemplo, às nossas crianças que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança a partir de estruturas de barro. E fazemo-las acreditar, contra sua própria índole e beneficência, que TUDO BEM se esse mesmo Deus quiser matar "outras crianças inimigas de seu povo". “Matar crianças? Como assim? Por quê?” Indagam-se facilmente por uma resposta ausente de qualquer sensatez.

Seria então a única utilidade de tais textos a constatação de que a mentira é, desde sua concepção divina, e como ela, uma característica de nossa origem? Estaria ela incrustada em nosso DNA e em nosso espírito?

Missionários – agentes de Deus – exploraram os pobres e os indígenas fazendo-os acreditar em falácias de uma "revelação" que em nada serviria senão para a ascensão e manutenção de seus privilégios. Herdaram-nos os genes da corrupção vestindo-o de autoridade divina. ⠀

Ensinam crianças a achar que cães e gatos são merecedores de carinho e cuidado enquanto nada de errado há em caçar, aprisionar, escravizar, matar e comer galinhas, porcos e outros animais. E assim, afogados em suas mentiras, alimentam-se delas e delas se utilizam para suportar sua imoralidade.

E cá estamos hoje mamando em nossas fantasias por detrás de nossas máscaras, achando que o problema está lá fora. Tememos o espelho como se refletisse uma imagem que não queremos.

E talvez seja essa a maior de todas as mentiras que criamos até hoje: pensar que a integridade é algo que podemos encontrar em algum lugar fora de nós mesmos, como uma chupeta para nos acalmar, quando é na verdade a mais humana de todas as virtudes. Não é uma chupeta na qual nos escondemos. É justamente o oposto dessa falácia com a qual nos acostumamos.


A integridade é certamente a linha que separa animais humanos dos animais não humanos pois é A característica que nos define, ou que deveria nos definir, pois não existe sem a consciência, sem a decisão de que exista. É, portanto, o suprassumo das escolhas. O solo no qual se planta e do qual brotam todas as demais virtudes. Sem integridade o ser humano deixa o “humano”, restando lhe apenas o ser, como qualquer invertebrado o é.


Enquanto o autor diz “Buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33) eu diria: “Buscai primeiro a integridade em cada respiração, e a justiça e todas as outras coisas, inclusive o reino de Deus, vos serão acrescentadas”.


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