A sutil arte de julgar

Julgar diz muito mais sobre nós do que sobre o outro. Na verdade todo julgamento é tolo e vago. Vamos falar sobre isso um pouco?

Perceba, quando julgamos alguém ou algo, estamos apenas emitindo nossa opinião pessoal sobre o ato do outro. Nosso ego se coloca para o outro. E confundimos, acabamos por julgar o outro por completo e não apenas o ato. E ao fazer isso nos involvemos de corpo e alma com o outro. No fundo, sabemos que o outro não se resume ao ato que julgamos, porque quando julgamos a nós mesmos julgamos de forma diferente. Temos consciência disso. Mas nosso ego não nos permite enxergar isso. Quando julgamos a nós mesmos, sabemos, lá no fundo de nosso ser, que não somos aquilo. Mas claro, conhecemos nosso ser. Mas não conhecemos o ser do outro. Isso é impossível. O ser de cada um é a coisa mais íntima e pessoal de todos e por isso nunca saberemos sobre ela. E porque então, quando julgamos o outro, julgamos o ser do outro e não a atitude em si? Porque nos esquecemos disso e assim caímos, nós mesmos, no erro do julgamento o qual em si também é uma atitude passivel de ser julgada e o ciclo então continua infinitamente. Agora então que sabemos da importância do não julgamento. Precisamos aprender e reconhecer que os animais, todos, sem exceção, também "são". A qualidade de "ser", não está apenas presente nos seres humanos, mas em toda a obra da criação. Toda criação é. Tudo o que se move e que possui vida, é. E sendo.. é um ser. Por isso aprendemos na escola que somos "seres vivos". E aprendemos também que gatos, cachorros, passaros são seres vivos, igualmente. Da mesma forma, aprendemos que porcos, vacas, galinhas e peixes também são seres vivos. Aprendemos, mas esquecemos. Em algum momento de nossa vida aprendemos sobre o poder do julgamento. E então, aprendemos a julgar o outro. E julgando alguns animais como "meros objetos" ou máquinas ou produtos acabamos por incorporando em nossa mentalidade o hábito de julgar. E o hábito cumpre bem o seu papel. Se torna automático. Ofusca a consciência. Esse é a função do hábito: ofuscar a consciência. Ele torna automático tudo aquilo que seria mais sensato fazer com consciência. Não usamos a consciência para dirigir e uma bailarina não usa a consciência para encantar, eles apenas o fazem, naturalmente. Aquilo que no começo parecia impossível de compreender e aceitar, o hábito transforma em algo ridiculamente simples e inquestionável. Assim não mais questionamos o absurdo que cerca nossas vidas. Nos acostumamos a eles. Somos capazes de ir a lua e em breve seremos capazes de visitar outros planetas, mas ainda assim não somos capazes de descobrir como transformar a química em biologia, ou seja, não somos capazes de entender, quanto menos admirar, o dom da Vida. E sem entende-la, a transformamos em um mero produto ou máquina. Transformamos uma árvore num simples pedaço de papel, florestas em carvão, riachos em córregos insalubres, um ser vivo em uma máquina e um objeto. Em questão de segundos, com nossas máquinas incríveis e nosso julgamento nefasto, somos capazes de destruir algo que Deus, o Universo e Natureza levaram bilhões de anos para construir. E julgando os animais e o Todo como inferiores todos os dias, a cada refeição, inserimos em nosso ser o dom do julgamento. Nos alimentamos disso. E sentimos prazer nisso. E assim, cada vez mais o razão e vago julgamento se torna parte essencial de nossas vidas. Não podemos mais viver sem julgar o outro. E assim construimos a sociedade que vivemos hoje: guerras, corrupção, fome, desigualdade, violência. Meras consequências naturais da sutil arte de julgar. De fato, julgar diz muito mais sobre nós do que sobre o outro. É parte integrante de nosso ego, no entanto, não de nosso ser. Deixar de julgar o outro, da mesma forma como não gostaríamos de ser julgados, demanda a mesma técnica utilizada no processo de julgar: precisamos deixar de tornar o julgamento um hábito e voltar a clamar pela consciência nas escolhas do dia a dia. Somente a consciência é capaz de ser mais forte que o hábito. Mas isso é tema para um outro bate papo.

2 visualizações0 comentário

© 2020 by Tacc Webdesigners.